segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Pautado para morrer

As operações do Bope nas favelas do Rio de Janeiro viraram espetáculo para a mídia periférica. O sucesso dos filmes Tropa de Elite e desse tipo de reportagem de pura exploração de fatos policialescos são os principais ingredientes de mais um crime estúpido. Há policiais que adoram posar para as câmeras como heróis, no pior estilo Hollywood, assim como há empresas travestindo jornalismo em sensacionalismo, onde os produtores fazem de tudo em busca de imagens exclusivas.
A principal pergunta no caso, do ponto de vista da Imprensa, é simples: por que repórteres têm de acompanhar operações rotineiras da polícia de choque? A operação na favela carioca pretendia a prisão de dois traficantes comuns. Nada mais. Foram mortos quatro suspeitos e presos apenas nove. Os dois alvos principais sumiram. O corpo do cinegrafista ficou estendido no chão até ser levado sem vida para um hospital. Hoje a Bandeirantes deve chorar editorais em seus telejornais e no seu programa de exploração da miséria humana, Brasil Urgente, mas certamente nenhum dos mestres da comunicação do canal paulista vão se perguntar sobre a relevância jornalística do fato que o cinegrafista estava cobrindo quando foi morto a tiro.   
O presidente da maior entidade de jornalistas nacional, Maurício Azedo, disse ao Bom Dia, Brasil, da Globo, que os profissionais tem que questionar a pauta quando há ameaça à segurança, mas considerou que o trabalho natural de todo jornalista é ir aonde a notícia está. Não é bem assim. Ir onde a notícia está, sim, mas em caso de guerra entre dois povos ou de grandes catástrofes naturais. Na favela de Antares havia um grupo policial fortemente armado combatendo um bando de marginais com fuzis nas mãos. Um jornalista se postar atrás de um policial, na linha de tiro, corre risco real de levar uma bala. E foi o que aconteceu.
 A questão não é a eficiência ou não do colete, está na cara que eles parecem mais uma fantasia, quase um abadá à prova de balas. A questão é outra. É a pauta. A pauta que Gelson Domingos recebeu para fazer a reportagem. É isso que tem de ser discutido entre o Sindicato, a Redação e a direção da empresa.

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