A ocupação da Rocinha pelas forças de segurança neste fim de semana foi um espetáculo cívico dos governistas e da mídia de comunicação. Os mocinhos venceram os bandidos, sem sequer dar um tiro, e gritaram bordões ufanistas e hastearam a bandeira da Pátria e cantaram o hino nacional, desta vez sob a mira das câmeras de jornais e tevês. A tropa demorou 30 anos para subir o morro. Trinta anos. Durante todo este tempo a comunidade da Rocinha cresceu entre fuzis e trouxinhas de maconha e papelotes de cocaína, num verdadeiro parque de diversões para os jovens desajustados da Zona Sul do Rio, com a cobertura de policiais que freqüentam com cínica desenvoltura os dois lados do crime e da ordem. Agora, de uma hora para a outra, está decretada a paz, bandido pra lá, morador pra cá, Polícia de olhos bem abertos. Como se sabe, não é bem assim que as coisas funcionam na realidade da vida. Para a comunidade da Rocinha, e isto está nos jornais de hoje como a Folha e o Estado, a questão está na presença ostensiva da Polícia num lugar onde moram 70 mil pessoas acostumadas a serem tratadas como marginais pela própria Polícia. A relação não será feita de sorrisos. A Polícia cumpriu seu papel constitucional, os agentes não são exatamente heróis nacionais, como são apresentados por repórteres precipitados. E os moradores da Rocinha não são exatamente vítimas do tráfico, são pessoas que querem levar a vida com liberdade e segurança. A Polícia não está ali para ajudar, como dizem os panfletos jogados de helicóptero sobre a comunidade, está ali para garantir os direitos do cidadão. E é isto que todos nós esperamos que aconteça –e não esta comemoração espetaculosa entre policiais e jornalistas de plantão por um mísero golzinho no meio do jogo.
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