domingo, 18 de dezembro de 2011

A droga do bom comportamento

Volta ao noticiário uma prática para a qual, nos últimos anos, vêm alertando psicanalistas e psicólogos: a prescrição de psicotrópicos para crianças de até seis anos. A venda do medicamento, de tarja preta, aumentou em mais de mil por cento nos últimos cinco anos, assim como, na mesma proporção, o número de crianças com diagnóstico de transtorno ou desordem de déficit de atenção e hiperatividade.
A referência técnica sobre a substância ativa do medicamento, o metilfenidato, indica que ele possui potentes efeitos agonistas sobre os receptores alfa e beta adrenérgicos. Traduzida, significa que eleva o  nível de alerta do sistema nervoso central e incrementa os mecanismos excitatórios do cérebro, resultando  numa melhor concentração, coordenação motora e controle dos impulsos. Resulta também em dependência química, insonia, lesões em alguns órgãos, como o fígado, sintomas consideradsos, pelos que prescrevem o tratamento, como efeitos colaterais leves.
A prática se popularizou e não era pra menos. Faz melhorar as notas, a criança passa a ficar quietinho nas aulas, obedecer, respeitar a professora. A hiperatividade também caiu no gosto popular. É mais cômodo para a família ter um filho hiperativo do que mal-educado e mal-comportado, ameaçado até de ser expulsao da escola. Então, se a criança quer jogar bola o dia inteiro, está sempre suado e correndo, fala e come rápido demais, briga com o irmão, é hiperativo. O aproveitamento escolar é baixo, não pára nem em frente à televisão? É hiperativo. Psicólogos e educadores se preocupam porque a hiperatividade é um distúrbio relativamente raro de difícil diagnóstico. O fato é que o remédio vem sendo administrado a crianças normais, apenas irrequietas que exigem de professoras inexperientes e mães impacientes ou ausentes  atenção e cuidado freqüentes. Tratados como portadores de distúrbio mental, são devidamente dopados para alívio da família e de algumas escolas e satisfação da indústria farmacêutica. No meio do caminho, o profissional médico.


Eleonora Ramos
Jornalista
Projeto Proteger
Rede Não Bata, Eduque

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