O surpreendente e estranho caso da troca de apresentadoras na bancada do Jornal Nacional merece atenção especial não apenas de telespectadores, mas principalmente dos profissionais de comunicação. A lorota orquestrada por Ali Kamel e Carlos Alberto Schroerder de que a Globo estaria atendendo a um pedido pessoal de Fátima Bernardes não fecha com as recentes informações do Ibope sobre o peso maciço da nova da classe C na audiência das televisões, peso que estaria desequilibrando a competição a favor das emissoras que atendem a este público. Desenhos do Pica Pau e seriado do Chaves batem com facilidade produções sofisticadas do estúdio global. A Xuxa, por exemplo, não tem mais horário onde possa se esconder. Ana Maria Braga, então, com seu show diário de arrogância social e falta de cultura perde feio no Ibope para as trágicas aventuras policialescas da Record. A mudança da Globo, com absoluta certeza, obedece ampla estratégia comercial para recuperar a audiência das manhãs, algo que move centos milhões de reais que nem se pode imaginar. A Globo fará, isto sim, o que for preciso para manter a liderança nem que isso custe o embaralhamento das principais peças da casa no xadrez da emissora.
Parece claro que Fátima Bernardes é o exocet da Globo para o bombardeio matinal. A escolha é perfeita, se considerarmos o alvo. Ninguém tem mais credibilidade na mídia nacional do que esta moça, salvo, claro, o marido dela. O programa de Fátima, do qual não foi revelado sequer o modelo (não se sabe se serão entrevistas, variedades, jornalismo, etc), deve dar seguimento ao Bom dia Brasil e fazer uma ponte entre o indefectível programa de receitas de cozinha e um bloco de desenhos animados até o horário do meio dia. Se esse esquema vai funcionar ou não, só o tempo dirá. Se vai ser melhor ou não, isso saberemos logo no primeiro dia.
Afinal, a grande vitória nesta mudança toda, do ponto de vista do telespectador, e pelo menos deste profissional de comunicação, é a quase certeza de que dona Ana Maria Braga será limada da grade global ou no mínimo vai mudar de horário. Chega daquela roquidão antipática arrostando filosofias baratas que não se sustentam nem em prato de porcelana de parede de cozinha. Paulo Coelho, por exemplo, não é o maior escritor brasileiro. Paulo Coelho é, tecnicamente, um péssimo escritor, isto do ponto de vista da crítica literária internacional. E nem Ivete Sangalo é a maior cantora brasileira. Ivete, aliás, não é nem cantora, trata-se de uma animadora de trio elétrico. As distorções na produção artística nacional, provocadas por generosas subvenções estatais e interesses exclusivamente publicitários, já prejudicam muito a sociedade, não precisamos de uma senhora baixinha inculta fantasiada de socialite a impor padrões culturais enquanto estamos tentando engolir um café da manhã depois do primeiro noticiário do dia.
Que seja muito bem vinda dona Fátima com todo seu conhecimento, beleza e cultura.
E que a classe C aprenda a consumir o que é de fato bom na televisão brasileira –e não este pastiche de comportamento americanizado que nos exibem todas as manhãs.
Nenhum comentário:
Postar um comentário