terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Os dois reis

Xadrez político é antigo recurso metafórico de cronistas diários para analisar estratégias partidárias, mas cabe como uma luva para o jogo aberto deflagrado pela candidatura assumida de José Serra a Prefeitura de São Paulo. Estamos diante de um jogo de xadrez político sim, com o presidente Lula como um dos reis e José Serra como o outro. Os partidos de aluguel e da base aliada são os peões, e os grandes oportunistas, como PMDB, PSD, PSB, PC do B, são rainhas, torres, bispos e cavalos. Há um tabuleiro central na capital paulista que influencia diretamente outros tabuleirinhos menores, como em Belo Horizonte, Salvador e Recife. O interessante e imponderável deste jogo é que as peças podem mudar da casa preta para a branca, e vice-versa. E o inédito e original deste jogo é que ele começa agora, passa pelas próximas eleições municipais, mas só acaba em 2014, na eleição presidencial.
A candidatura de Serra em São Paulo reafirma seu nome como líder nacional da oposição. Ele mostrou capacidade de reunir apoio para enfrentar o rolo compressor do Governo Federal. É um rei que volta ao combate de cabeça erguida, embora sob olhares desconfiados de suas próprias peças. Do outro lado do tabuleiro, Lula usa todo seu arsenal de cooptação política de adversários e também reafirma sua liderança incontestável das forças governistas. Ele é o cara. Com câncer ou sem câncer, provou que mexe suas peças caseiras como bem quer.
A questão que encerra o resultado final das próximas eleições, tanto dessas municipais quanto da presidencial, não está apenas na capacidade de arregimentar apoio partidário, que garante tempo no horário eleitoral, cabos eleitorais e esvaziamento do adversário, mas principalmente na representatividade real do candidato para conduzir o país nestes tempos de incertezas políticas, impasses sociais e notório desenvolvimento econômico. O Brasil está maior e, claro, mais maduro. O próximo eleito vai ter que falar sério. Talvez Serra leve vantagem nesse ponto apesar de todo carisma popular de Lula. Lula tem uma razoável bagagem de realizações, mas também arrasta atrás de si uma mala de falcatruas indefensáveis, além de ter pisoteado na ideologia partidária durante o samba lógico da governabilidade. São dois reis fortes o suficiente para não depender das outras peças do tabuleiro, embora se saiba que em jogo de xadrez em geral quem ganha é a rainha.
Dilma. Não vai a lugar nenhum. Não tem exército para isso. Sua retórica política é simplória, ataca os “antecessores”, desfigura a realidade e promete um mundo perfeito. Sua gestão política é um desastre, não por culpa apenas dela, afinal está cercada por membros honorários e efetivos da sofisticada organização criminosa que domina o País sob o comando de Lula. Está presidente apenas para evitar um grande colapso de gestão pública, embora os fatos, como as seguidas denúncias de corrupção e de questões isoladas como a destruição da estação brasileira na Antártica, gravíssimas e indefensáveis, estejam ameaçando sua missão à frente do Governo. Ela sabe disso. Serra também sabe. E Lula, claro, sabe ainda mais do que se pode imaginar.
Os resultados das eleições em São Paulo, Belo Horizonte, Salvador e Recife serão uma pista conclusiva ou mesmo um rastilho de pólvora para o barril das urnas de 2014. Talvez não haja restaurador político capaz de unir os mil cacos do tabuleiro.        

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