segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Ecos da folia

O mais impressionante da transmissão televisiva do maior espetáculo da Terra é que não existe crítica. Nem a mínima possível. Tudo é divino e maravilhoso. Um mundo perfeito no qual não cabe a realidade. Um exemplo? No desfile das escolas de samba (??) de São Paulo, a Escola Águia de Ouro homenageou a Tropicália e fez críticas à ditadura militar. Um dos destaques, no alto de um carro alegórico, encenava o que seria a morte do jornalista Wladimir Herzog, em uma cena absolutamente deplorável, com um ator simulando um enforcamento e depois sambando na ponta da corda, pra lá e pra cá. A alegoria inusitada politizou o desfile. O narrador era o narrador de esportes da Globo, Cléber Machado, o repórter de pista era o jornalista Alan Severiano. Os dois tentaram, mas não conseguiram explicar o que estava se passando no sambódromo paulista. Alan ainda conseguiu destacar a abordagem política como inadequada a uma festa popular, mas Cléber derrapou na justificativa da cena tentando explicar o que havia acontecido de fato com o jornalista e omitiu, não sem algum esforço retórico, a bárbara tortura que matou Herzog. Será que ele desconhece a história? Será que ele acha mesmo que há dúvidas sobre o assassinato de Herzog? Por que ele não falou a palavra tortura? A Globo, de uns tempos para cá, resolveu usar seus simpáticos e entusiastas narradores esportivos no maior evento popular nacional, o carnaval. Por que? Porque jornalismo, no caso, não interessa. A Globo produz, promove e fatura alto com o carnaval. Tudo é divino e maravilhoso. Seus artistas contratados são as estrelas únicas do espetáculo. Só se vê atrizes e modelos globais mostrando seus melhores dotes, ou seja, os seios e a bunda. Não há jornalismo. Não há distanciamento crítico. Não há comentário independente do interesse comercial da empresa. Os especialistas convidados aprovam tudo que a tevê mostra. O que resta, então, a nós, pobres telespectadores, se a maior empresa da mídia de comunicação é a principal promotora do evento e não tem, portanto, senso crítico? O que a gente faz? Desliga a tevê, claro.        
E na Bahia, heim? Não vi, não ouvi, não digo nada. Li apenas na Internet que a animadora de bloco Ivete Sangalo se considera a presidente da Bahia. Isso mesmo. A artista popular, pra lá de popular, se projeta em suposição política como presidente da Bahia, governadora é pouco para aquele ego megalomaníaco. Alguém precisa dizer a esta balzaqueana quarentona que a vida não se resume em carnaval. E que nem todos nós brasileiros somos milionários ascendentes no País das Maravilhas inventado pelo presidente Lula, este folião incorrigível. E que nem todos engolem a hóstia do Sim distribuída diariamente pelo Jornal Nacional.
O governador Jacques Walker também sapateou discretamente o bom senso. Depois de surpreendentemente admitir que o carnaval da Bahia este ano está meio frouxo, esvaziado, após a recente greve dos policiais militares, o governador baiano voltou a si e tentou desmentir a ele mesmo: “Tudo indica que teremos um carnaval dentro da normalidade, e tenho sentido as pessoas em um espírito mais de paz.” Para que mentir? Será que ele esteve em algum bairo popular, talvez para cortar o cabelo, fazer a barba? Ou pra  tomar uma rapidinho no boteco da esquina com os camaradas em Sete de Abril, ou na Calçada, ou na Itinga? Nada. Mister Walker saiu de carro fechado do Palácio de Ondina para um camarote no bairro vizinho, não falou com ninguém do povo, só com assessores, seguranças, “repórteres” e a indefectível pequena legião de puxas-sacos. Mentiu apenas por que é da natureza de políticos profissionais. E, claro, porque estava vestido com o abadá do PT.
     

Um comentário:

  1. Incrível... após trÊs dias de pesquis foi este o único cpost "lucido" sobre a cena deplorável travestida de "homenagem" que vi na web. Nem mesmo o Isntituto Vladmir Herzog, publicou qualquer tipo de nota. Pelo menos, agira, não me sinto tão sozinho no meu horror

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