quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Outro ano de solidão

Muitos anos atrás, à espera do pelotão de fuzilamento, meu pai me levou para conhecer o gelo, o fogo, os espíritos que não existem, a caligrafia dos doutores, as codornas dos pântanos, o monumental estádio olímpico do Grêmio Football Portoalegrense, os taróis da banda do ginásio, o caldo de frutas do Mercado Público, o Austin azul do carrossel do Parque Farroupilha, os filmes de mocinho no Cine Castelo, o cheiro da gasolina no carro velho enguiçado na estrada da praia, a arte de dominar a bola de costas para o zagueiro, o jeito de acender carvão sem precisar abanar, o que é bagre ou grumatã ou traíra ou jundiá, o canto do sabiá e as sete cores da saíra. Hoje ele já não está mais aqui, mas não deixo de vê-lo todos os dias, na estrada que vai da cabeça ao coração. Acho que aprendi quase nada, mas não esqueci a parte que dizia que a noite é tão negra que a alvorada não deve demorar. Começa um novo ano, a melancolia ajuda a enternecer a desconfiança do que vem pela frente e a esperança é boa arma para resistência. Afinal, como bem se sabe, nada adianta de nada, ninguém sai dessa vivo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário